Entre os doze apóstolos, um chama a atenção pelo próprio
apelido: Simão, o Zelote. O termo não era um adjetivo qualquer; na Judeia do
primeiro século, os zelotes eram um grupo de homens voltados ao "zelo"
pela fé de forma radical. Tinham um projeto de resistir à ocupação romana, se
preciso pela força, em nome da soberania de Israel. Então, se Simão vinha desse
meio, como sugere seu apelido, ele carregava uma causa (libertar seu povo da
opressão do Império Romano) e um método já formado para defendê-la (possivelmente,
a luta armada).
O Evangelho não registra uma única fala sua. Mas há uma cena
em que sua provável formação é posta à prova: no momento da prisão de Jesus, um
discípulo saca a espada e fere o servo do sumo sacerdote. Jesus repreende o
gesto e, segundo Lucas, cura o ferido ali mesmo, diante de todos (Lc 22,51).
Mateus aponta que Jesus diz uma frase forte nesse momento: “Todos os que
empunham a espada, pela espada perecerão” (Mt 26,52). Simão possivelmente
estava assistindo à cena. E, ali, Jesus rejeita publicamente uma ideia que ele
talvez tivesse como natural: a de que uma causa justa autorizaria o golpe
fatal.
Essa cena tem um eco incômodo hoje. Sobretudo em período
eleitoral, é comum ouvir propostas de tolerância zero e discursos de extermínio
contra criminosos, muitas vezes com respaldo de pessoas que se dizem cristãs. O
argumento costuma ser justo na aparência: não se trataria de atacar o
vulnerável, mas de proteger comunidades inteiras de quem as aterroriza.
Em meio ao caos que a criminalidade implantou em nossa
sociedade, a questão merece ser levada a sério, mas a solução proposta não
responde à pergunta que o episódio da orelha coloca. Jesus não separa, naquele
momento, quem "merecia" ser ferido de quem não merecia - o problema é
ferir pela espada, não importa quem. E, na prática, o extermínio como política
raramente acerta apenas os culpados: sem processo, sem julgamento, matar o
inocente junto ao criminoso certamente deixa de ser exceção e vira parte do
método.
Se a leitura tradicional sobre Simão está certa, sua
história não é a de alguém que simplesmente abandonou uma causa, mas de um
homem que aprendeu a colocar o mesmo zelo em outro lugar: não mais contra um
inimigo a ser eliminado, mas a favor de um Reino onde até o inimigo pode ser
recuperado. “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”, é o
mandamento do Mestre.
É esse zelo, mais exigente e menos espetacular, que talvez
seja a resposta cristã mais honesta ao clamor por justiçamento que volta a cada
eleição.

